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Apresentação – Exposição Mariza Carpes

novembro 28, 2013

INVISÍVEIS FEMINILIDADES

Bernardete Conte
Psicóloga e Mestre em Pintura pela
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa

O que fazer com pedaços de antigos objetos vinculados à história pessoal e familiar? Fragmentos de um véu de noiva dos anos setenta, meias de seda antigas que pertenciam à sua mãe, pedaços de velhos ferros de passar roupas ou de cintas elétricas destinadas ao emagrecimento, partes de toalhas bordadas e de objetos de cozinha. O que fazer destes fragmentos de um universo feminino constituído num determinado tempo e que fazem parte de um espaço outro? Jogar fora? Colocar tudo no lixo? É uma possibilidade, mas Mariza deu-lhes outro destino. Utilizou-os para realizar suas obras.

Nelas, ela fez desaparecer a tridimensionalidade do objeto. Transformou-o em vestígio, traço, linha, mancha, superfície. Criou uma imagem. Imagem que prende o olhar, mas que não revela nada de imediato. Ao ser criada, a imagem liberta o olhar fazendo aparecer as condições de visibilidade da própria imagem. Nesta, o objeto anula-se como tal para dar a ver um espaço-tempo que permite aparecer uma coisa outra. A essência do objeto é uma: distinta do espaço que ocupa essa matéria e diferente do tempo próprio dessa mesma matéria. A essência da imagem é outra: aparece para fazer “desaparecer” o que de real havia. Assim, com este ato de transformação, Mariza liberta a objetividade do objeto, não para dar lugar a uma subjetividade, mas para que a imagem criada faça aparecer o irrepresentável, ou seja, aquilo que está por trás dela e aquilo que lhe dá origem.

Mariza age tal como a filha do oleiro Butates de Sício, relatado por Plínio, o Velho no livro XXXV da História Natural. Ao saber que o amado partiria e antecipando a sua ausência, a filha do oleiro contorna a sombra da cabeça do amado numa parede. Para realizar este ato, ela fica de costas para o objeto amado e ela já não o vê. E assim surge o ato fundador do desenho. Esse relato, sendo uma lenda, contém uma verossimilhança histórica porque obedece a uma veracidade simbólica, uma vez que a ausência é a condição do surgimento da imagem. Aquilo que está desaparecendo é transformado ativamente num reaparecimento – num outro aparecimento.

Assim como a filha de Butates, submetendo-se à interdição de não ver mais o amado, desenha-o para poder continuar a vê-lo sob a forma luminosa de uma imagem, os objetos do universo de Mariza são transformados em imagens para continuarem sendo vistos para sempre. Esse “para sempre” é a sombra sobrevivente do que ela amou. Imagem constituída pela memória e reveladora da alma feminina que habita a autora.

Aí está a força desta exposição: mostra o que se deixa ver e o que se propõe invisivelmente ao olhar. Esta hiância ― entre o que se mostra e o que não se vê ― provoca um espanto. Como num jogo de tênis, onde se pode assistir ao jogo incontáveis vezes e se surpreender a cada vez com o lugar para onde a bola foi jogada. Como se a bola dissesse: não estou aqui, estou alhures. E é por esse alhures, de que a orientação do espectador nada sabe, é que surge o espanto e surge uma desorientação espaço-temporal, que não é apenas o desaparecimento de um saber, mas é também o aparecimento de um furo neste saber, de um vazio, uma espécie de umbigo através do qual um enigma surge: é um não-saber que se comunica com o que está sendo visto e que permite passar ― tal qual Alice ― para o outro lado do espelho, numa quarta dimensão, que é a dimensão que o espaço adquire quando gerado pelo tempo.

Como no furo do espelho de Alice, essa outra e espantosa dimensão que o observador atravessa é a de perceber o passado infantil de uma menina, encantada com os objetos e com o universo que a rodeia. É o aparecimento de um começo sem tempo, de algo esquecido e inesquecível ao mesmo tempo, que vem numa descontinuidade temporal, mas que, através dela, o espectador fica autorizado a explorar uma dimensão pessoal, íntima e secreta da artista.

O processo criativo de transformar objetos amados em imagens operado por Mariza, criam um espaço topológico possível porque feito pelo entrelaçamento do desejo e da condição feminina, mas articulado dentro de uma estrutura outra: a estrutura poética na qual a obra de Mariza se insere.

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