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Apresentação – Exposição Fernando Lima

novembro 28, 2013

DEAMBULAÇÕES: A POÉTICA DOS LUGARES

 

Bernardete Conte
Psicanalista, Mestre em Pintura pela
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012

 

Fernando e eu fomos colegas no curso de Especializações em Poéticas Visuais, em Pintura, Desenho e Instalação: processos híbridos, da FEEVALE, Novo Hamburgo, RS, em 2007 e 2008. Durante esta convivência, foi que percebi o olhar transformador de Fernando Lima. Todos os elementos do universo são, para ele, potencialmente transformáveis. Esse olhar que vê mais além da forma visível, que vê mais além da qualidade material do objeto, que vê o invisível que está contido no objeto, é que possibilita o aparecimento de sua arte. Um fazer pictórico que mostra um outro lado da imagem: mostra o que se deixa ver e o que se propõe invisivelmente ao olhar.

Nas Deambulações, Fernando caminha por uma cidade em constante transformação e seu olhar procura aquilo que está ameaçado de desaparecer. E ele fixa esta imagem e ele a pinta.
Sua pintura cumpre, portanto, o ato fundador da imagem. Tal como a filha do oleiro Butates de Sício, relatado por Plínio, o Velho no livro XXXV da História Natural. Ao saber que o amado partiria e antecipando a sua ausência, a filha do oleiro contorna a sombra da cabeça do amado numa parede. Para realizar este ato, ela fica de costas para o objeto amado e ela já não o vê. Esse relato, sendo uma lenda, contém uma verossimilhança histórica porque obedece a uma veracidade simbólica, uma vez que a ausência é a condição do surgimento da imagem. Aquilo que está desaparecendo é transformado ativamente num reaparecimento – num outro aparecimento.

Assim como a filha de Butates, submetendo-se à interdição de não ver mais o amado, desenha-o para poder continuar a vê-lo sob a forma luminosa de uma imagem: as casas, as pontes, os moinhos, as históricas construções em enxamel, as ruelas, os detalhes das construções da cidade de Fernando são transformados em imagens para continuarem sendo vistas para sempre. Esse “para sempre” é a sombra sobrevivente do que existiu e que ele não quis que se perdesse. Imagem constituída pela memória, mas reveladora de um interstício, de uma hiância entre o que se mostra e o que não se vê.

Por isso, suas pinturas provocam um espanto. Este espanto surge de uma desorientação espaço-temporal, que vem pelo reconhecimento do local que está sendo visto como se esse fosse uma trivialidade, mas também, paradoxalmente, porque anuncia a possibilidade de um desaparecimento vindouro. Cria-se, então, uma espécie de um furo, de um não-saber, de onde surge um enigma: é um não-saber que se comunica com o que está sendo visto e que permite passar ― tal qual Alice ― para o outro lado do espelho, numa quarta dimensão, que é a dimensão que o espaço adquire quando gerado pelo tempo.

E é ali que está a força de sua pintura: mostra o que se deixa ver e o que se propõe invisivelmente ao olhar. Como no furo do espelho de Alice, essa outra e espantosa dimensão que o observador atravessa é a de perceber a imagem existente e o anúncio de uma morte, no universo que nos rodeia. É o aparecimento de um tempo sem começo, de uma descontinuidade temporal que o espectador não tem como perceber, distraído pelo cotidiano de sua vida. Mas que se revela na imagem produzida por Fernando como uma aparente narrativa visual. Entretanto, é ali onde se encerra a estrutura poética de sua obra: a condição do desaparecimento e da permanência de uma cultura. Imagem imutável de uma vida infinita e inesgotável, porque sempre em perene modificação e desaparecimento.

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