Blog

Image

Instalação: O duplo do caminho

novembro 02, 2016

o duplo do caminho
Uma reflexão sobre espaço-tempo

“Uma pedrinha limada, envelhecida,
contém mais água que um poço, não em si,
mas no que lhe falta.”
(Maria Carpi)

Este trabalho que foi realizado para a disciplina Atelier tridimensional: Instalação, do Prof. Dr. Hélio Fervenza, para a Especialização em Poéticas Visuais: pintura, desenho e instalação: processos híbridos, no ano de 2008

Se propôs a:

⦁ fotografar os atos cotidianos que os estudantes de arte fazem ao percorrer o espaço físico da própria instituição, FEEVALE, e apresentá-los na forma de um Playmobil, no mesmo local onde foram fotografados. A intenção é que, ao fazer uma interferência neste percorrer cotidiano, no exato lugar onde o fato acontece, seja possível a criação de um duplo. Daí, o nome: o duplo do caminho;

⦁ listar e selecionar alguns destes lugares, onde ocorrem estes atos;

⦁ ampliar as fotos selecionadas e colocá-las no mesmo local onde foram fotografados, criando assim, no espectador, um efeito de duplo;

⦁ criar um personagem para ser um duplo do próprio estudante;

⦁ utilizar a desproporção na escala entre o personagem e os objetos utilizados, para proporcionar um estranhamento frente à situação;

⦁ criar uma situação lúdica, na medida em que o brinquedo evoca uma possibilidade de retorno à infância por um imaginário reforçado pela escala – desproporção – e pela presença de um objeto infantil no universo universitário.

Seguiu-se os seguintes passos para a realização da instalação proposta

⦁ A primeira coisa que fiz foi fotografar todos os espaços da Feevale, desde o pátio, piscina, bar, corredores, etc. Após a sessão de fotos foi feita uma seleção que correspondesse mais às concepções que se esboçavam a partir do início dos trabalhos e que corresponderiam à realização do objetivo. No final, foram selecionadas 18 fotos dos seguintes lugares:

– no local de apresentação do cartão magnético de estudante, portaria que dá acesso ao estacionamento
– caminhar em dois locais dos corredores
– tomar água no bebedouro
– xerocar documentos
– usar o bar
– retirar dinheiro do caixa eletrônico
– solicitar a chave do atelier na portaria
– sentar no pátio central
– colocar o lixo no lixo
– caminhar no corredor que dá acesso à biblioteca, cujo desenho no chão se diferencia dos outros dois corredores
– entrar na biblioteca
– subir as escadas para o atelier 5
– usar o tanque de lavar material
– estudar em livros de arte, dentro do atelier

Reflexões surgidas após o início do desenvolvimento dos trabalhos.

Logo de saída, comecei a questionar o conceito de lugar, de pertinência, de tempo, de espaço e pude evidenciar que o que eu chamava de lugares, lugares escolhidos para as fotos, na verdade, não eram lugares. Pode-se dizer que são mais passagens, do que lugares. Passagens estas, que são fragmentos de um espaço por onde os estudantes de arte da Feevale circulam diariamente e que se sucedem como as imagens de um sonho. Elas não se fixam na memória, porque são automatizadas pela freqüência com que estes lugares são percorridos. Pareceu-me, então, que a repetição e automação destes atos, transformam estas passagens em espaços-vazios, ou passagens vazias, ou lugares-vazios, se considerarmos que a significação desaparece sob a automação;

⦁ Pretendi então, dar destaque a estes atos tornados mecânicos, vazios de sentido, fotografando e ampliando. E colocar estas fotos ampliadas nas passagens mesmas onde os atos ocorrem, como uma chamada de atenção sobre a natureza de certos atos, no decorrer da vida;

⦁ Paradoxalmente, pensei que estas passagens, que seriam não-lugares, por serem espaços momentâneos, no seu conjunto, formam “um lugar”, o lugar onde o caminho percorrido passa a ter um sentido específico funcional, necessário para a vivência e aproveitamento do espaço da instituição e de pertinência à instituição e ao universo específico dos alunos de arte. Ao realizar todos estes atos cotidianos, mesmo que eles passem desapercebidos, na verdade, é isto que permite que o aluno de arte esteja integrado e participando da vida acadêmica, tornando em um lugar pleno.

⦁ Para criar o duplo do estudante de arte, foi escolhido um personagem, que é um playmobil, brinquedo muito comum nos anos 70, que simula a vida real, mas numa dimensão diminuta;

⦁ As fotos foram ampliadas em tamanho de 60×90, sobre placas de pvc, de 1,5 mm de espessura e foram apresentadas nas mesmas passagens onde os atos cotidianos foram fotografados. A intenção é a de criar o efeito de duplo, e poder ser um ponto de atração e questionamento para o espectador.

Fotos dos locais onde foram implantados os “duplos”

o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_2d64f2d7baec5ccd o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_6e3488e88de1cbbe o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_8de6701759069747 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_32c26db0f7cb19c5 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_35dbd60e4588a04d o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_51ff4a17e9d376e o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_134c3f9b68887a1d o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_277cb313d5c33694 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_724ff644c865be2a o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_904b2c1da3e683e6 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_8600bc5445c4bdbf o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_17434aa9209365e7 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_26948bae1fd4321f o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_a3dc9ba449e52332 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_f436d6a52a0a1d4e o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_f358313684e29387 o-duplo-do-caminho-ii-para-o-site_html_fe3e1de13f2a08bc

Os textos que serviram de base para o desenvolvimento da Instalação

⦁ Instalação: campo de relações, da Prof. Dra. Elaine Tedesco, publicado no Curso Especialização em Ensino da Arte, Feevale, 2004;
⦁ A Instalação em situação, de Stéphane Huchet, in Concepções contemporâneas da arte, de Luiz Nazario e Patrícia Franca, Editora UFMG, 2006;
⦁ O + é deserto , do Prof. Dr. Hélio Frevenza, Escrituras Editora, SP, 2003
⦁ O Espaço moderno, de Alberto Tassinari, Editora Cosac & Naify, SP, 2001
⦁ A arte da presença, de Márcio Doctors, in Crítica de arte na Brasil: temáticas contemporâneas, Funarte, RJ, 2006
⦁ As práticas do espaço, de Michel de Certeau, in A invenção do Cotidiano, Editora Vozes, RJ, 1994
⦁ No interior do cubo branco: A ideologia de espaço de arte, de Brian O’Dorherty, Editora Martins Fonte, SP, 2007

Entendi que a instalação é uma prática artística que nasceu nos anos 70 e que virou um verdadeiro gênero devido a tantas manipulações.

É impossível defini-la porque ela se situa no lugar de convergência de várias dimensões históricas e críticas que a tangenciam, segundo Stéphane Huchet.

Na década de 60, artistas como Jim Dine, Alan Krapow e Claes Oldenburg inauguraram uma vertente de arte que, através das categorias da intuição, que são o espaço e o tempo ativos da experiência do mundo, era voltada para a indagação semiológica das dimensões reais do ambiente urbano e cultural e institucional do mundo da arte. Quando estes artistas, trabalhavam com os happenings, já se esboçava uma nova maneira de expor, mas se esboçava porque o Merzbau de Kurt Schwitters e os espaços Proun de El Lissitzky, nos anos 20 e as exposições surrealistas dos anos 30 já haviam dado os primeiros passos.

Identificada pela palavra environments, esta nova maneira de expor investia em lugares alternativos e em espaços ou ações artísticas. A mudança de denominação para “instalação” evidencia a mudança de rumo.

Os environments são, de certo modo, os ancestrais promissores e radicais da instalação, nos diz Huchet, ainda no mesmo texto. Segundo Krapow, a instalação é para o environments como a performance é para o happenig: formas retardatárias de protótipos radicais. A instalação é cenográfica enquanto a performance é teatral. (…) a instalação instala objetos discretos, assemblages, vídeos, etc… dentro da caixa neutra do lugar da exposição. Em conseqüência, a estrutura da instalação é o arranjo hierárquico e familiar de partes para conjuntos, no qual, objetos acentuados ou não, são situados e jazem em favor de um focus ótico contra a parede ou no chão de exibição.

 

Artistas pesquisados:

1 – Gabriel Orozco

Gabriel Orozco cria líricas obras em escultura, desenho, fotografia, instalação e vídeo. Mídias tão diversas como as questões de arte que Orozco engendra e explora: como a aleatória criação de significados, a construção do espaço e do tempo e a mutabilidade dos formulários.

Muitas das suas esculturas são feitas a partir de objetos encontrados nas ruas, como uma bola de futebol e um tabuleiro de xadrez ou como a apresentação de um Citroen, dividido em três partes longitudinalmente, e ter excluído a parte central, tornando o automóvel magro. Orosco faz um diálogo com o readymade de Duchamp, nas suas fotografias, que documentam encontros com lugares e coisas do

México, seu país de origem, e de outros lugares do mundo como Índia, Islândia ou Nova York.

O artista intervém nos objetos que ele descobre, e produz arranjos que depois são fotografados, como construções peculiares.

Às vezes, ele transforma o objeto comumapenas pelo ato de nomeação, como ele faz com os títulos de obras como Pulpo (Octopus, 1991) em que el cria uma simbólica associação em um enredar de tubos, e em Dois casais (1990), onde ele antropomorfiza dois pares de vasos de barro. Outra foto, parece ser de uma nuvem no céu, mas, na verdade, é um reflexo capturado em uma bola de futebol sobre a água (1994).

As fotografias de Orozco são gravações de seus movimentos e atividades artísticas e servem como demarcadores da sua poética simples, mas essencial da relação entre os objetos e os corpos.

2 – Artistas que compõem o Espaço de Instalações Permanentes, no Museu do Açude, tais como Fernanda Gomes, Adriana Varejão, Tunga, Cláudia Bakker e Artur Barrio, citados no texto de Márcio Doctors, e que trabalharam no projeto “Forma na Floresta”.

Na Floresta da Tijuca, RJ, há um espaço de instalações permanentes destinadas a pensar a instalação como um conceito expandido, que envolve a relação do objeto plástico com seu entorno. Marcam uma diferença com a escultura, uma vez que esta, estabelece uma continuidade do trabalho do artista no atelier e a destinação final da obra, enquanto a instalação marca uma relação diferenciada com a paisagem, quebra o circuito convencional do artista, fazendo-o agente ativo da visibilidade relacionada com a paisagem. Esta, não é mais um lugar passivo que absorve o olhar, mas é parte de alguém que a vê, sendo ela mesma vista. Na verdade, Doctors afirma que a história da paisagem é a história da distância entre estes dois olhares, como se fossem universos à parte, só tocados pela distância intrínsica ao ato de ver. O que estes artistas propõem é uma quebra na cadeia de representação. Eles se aproximaram da “matéria-imagem” afirmando que não há mais distância entre o homem e a paisagem. Não há mais a tela separando o mundo da realidade humana e o mundo da realidade da representação. É um esforço de aproximar arte e vida.

Fernanda Gomes realizou uma experiência vivencial com a floresta, cuja obra foram os resíduos que ela deixou na passagem pela floresta. Pequenas coisas como garrafas, casacas de frutas, pedaços de papel denotavam a sua passagem e poderiam parecer estar ali por acaso, mas ela mostrou sua intencionalidade ao suspender estes fragmentos em fios de nylon, que ora eram visíveis, ora desapareciam, necessitando serem procurados.

Cláudia Bakker colocou 900 maçãs em uma das fontes do Museu e o que aconteceu foi um poder de sedução dos visitantes que acabaram se apropriando das maçãs, tendo de serem repostas no dia seguinte. A artista fez uma alusão ao comer do fruto proibido no mítico gesto de Adão e Eva.

Tunga fez uma instalação constituída por duas mesas recobertas de melado com uma luz ultravioleta que atraía os insetos. Logo, eles eram capturados pela viscosidade do melado e ali morriam. Uma obra que criou uma relação circular entre o saber, poder e natureza, fustigando a concepção da ciência que mata para investigar.

Artur Barrio fez a “Cancela de carne” onde ele recobriu a cancela com carne de boi, enquanto Adriana Varejão fez nascer da terra, como se ela estivesse abrindo e mostrando suas entranhas, representações de carne feitas com tinta a óleo. Estranhamente, esta última, que era uma representação, causou mais estranheza e perplexidade, pois que remetia à condição atual do mundo informacional e virtual contemporâneo em que nos sentimos as pessoas se sentem anestesiadas diante do real e sensibilizados diante da representação do real.

A chave, ainda segundo Doctors, para apreendermos o sentido das instalações é esse ancoramento das imagens no mundo através da articulação matéria. Esta questão se evidencia à medida que o tecnologia se aproxima de um duplo do mundo, e as imagens são manipuladas no sistema de informação virtual. A perda de consistência e o descolamento da imagem produzem um mundo que é pura abstração, que gera indiferença e um sistema de emocional centrada na auto-compaixão. As grandes causas são substituídas pelos grandes sentimentos, mas que não pertencem a ninguém especificamente. Resta apenas a indiferença frente ao sofrimento ou alegrias alheias. Ao desprender-se da matéria, a imagem alia-se à fantasia. Ao perder seu ancoramento material que determinava a dimensão temporal, a imagem vira imagem virtual e a virtualidade é absoluta e atemporal. É incapaz de lidar como específico, com o com o particular, com o individual que pertencem à ordem do sensível. A liberação da multiplicidade da imagem gerou a identidade do indiferenciado.

Daí, segundo Mário Pedrosa, a arte ser um importante exercício experimental de liberdade.
A relevância de um projeto como o Espaço de Instalações Permanentes consiste em estabelecer um território capaz de absorver esse pensamento da arte, que é o de reter a imagem em sua presentificação material, antes que ele desapareça sob a virtualidade e seja criada uma desagregação da potência da vida.

Por isto, a importância da arte como criadora de presenças. Daí, a função que a instalação de criar um desdobramento da questão da diluição das fronteiras entre arte e vida dos anos 60, e que, agora, está permeada por uma experiência radical de perda da carnalidade sem a morte.

A função da arte tem sido a de restabelecer a união entre imagem e matéria, mas de uma matéria que é apreendida, conforme Bérgson, enquanto imagem: atravessada e constituída no tempo.

Por isto, as instalações e todas as formas de arte que rompem com a classificação tradicional das artes plásticas, não podem mais ser pensadas na ordem da visualidade nem na ordem da espacialidade, mas na ordem plástica da presença, como tempo espacializado. Como uma espacialidade capaz de ser moldada por estados de tempo.

Sticky
In BLOG

Post a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*